AVACI-FESAAL 2026: Tóquio reúne autores audiovisuais de todo o mundo

O próximo Congresso Anual da Confederação Internacional de Autores Audiovisuais (AVACI) e da Federação de Sociedades de Autores Audiovisuais Latino-Americanos (FESAAL) será realizado na cidade de Tóquio, Japão, nos dias 19 e 20 de outubro de 2026. Este importante encontro reunirá representantes do audiovisual de todo o mundo, em um contexto marcado pela transformação dos modelos de produção, distribuição e exploração das obras. Hoje, mais do que nunca, a defesa do direito de autor, a remuneração justa, a gestão coletiva e o impacto da inteligência artificial estarão entre os principais desafios enfrentados pela comunidade internacional de autores audiovisuais.
Congresso AVACI FESAAL 2025 realizado em Zagreb, Croácia
Para Teresa Saldarriaga, membro do Conselho Executivo da FESAAL e presidente da Directores Audiovisuales Sociedad Colombiana de Gestión (DASC), esse tipo de encontro é fundamental porque permite compartilhar experiências e necessidades entre autores de diferentes países. “A busca pelo direito de autor, embora todo mundo pense que está solucionada, não está”, afirma.
Segundo explica, ainda existem países onde o reconhecimento dos direitos dos autores audiovisuais não está plenamente estabelecido, razão pela qual considera necessário continuar fortalecendo a organização coletiva.
Saldarriaga também destaca a evolução da FESAAL desde sua criação: “Quando começamos, há cerca de oito anos, com a FESAAL, éramos apenas a América Latina. E agora já temos América Latina, Europa, África e Ásia-Pacífico”. Em sua opinião, esse crescimento reflete a importância de construir uma rede internacional capaz de compartilhar conhecimentos e estratégias para a defesa dos direitos dos criadores.

Teresa Saldarriaga, presidente do DASC e membro da ExCo FESAAL
Um diálogo entre regiões
A realização do Congresso na região da Ásia-Pacífico permitirá incorporar ao intercâmbio internacional as particularidades de uma região com uma indústria audiovisual de enorme diversidade e alcance global.
Da Coreia do Sul, Hyun Sung Moon, chefe do Comitê de Direitos Autorais da Directors Guild of Korea (DGK), considera que o encontro representa uma oportunidade para colocar em comum experiências legislativas, jurídicas e organizacionais. “Cineastas de diferentes continentes e tradições enfrentam desafios surpreendentemente comuns, desde uma remuneração justa até a proteção da autonomia criativa”, afirma.
Para Moon, o intercâmbio pode ser especialmente relevante para países que, como a Coreia do Sul, trabalham na introdução ou no aperfeiçoamento de direitos legais de remuneração. Nesse sentido, ele destaca que “as experiências de gestão coletiva desenvolvidas na América Latina e na Europa podem oferecer precedentes e ferramentas úteis para os debates nacionais”.
Entre as prioridades que identifica está o estabelecimento de uma remuneração equitativa e irrenunciável pela exploração digital e em plataformas OTT, de modo que os autores possam participar do valor gerado pela circulação de suas obras. Também aponta a necessidade de desenvolver padrões internacionais diante da inteligência artificial generativa e de fortalecer a negociação coletiva e os acordos de cooperação entre sociedades de gestão e organizações profissionais.
“Ao compartilhar estratégias legislativas bem-sucedidas e construir uma voz global coesa e unificada, podemos fortalecer significativamente os sindicatos nacionais individuais em seus debates sobre políticas internas e reformas legais”, afirma.

Hyun Sung Moon, chefe do Comitê de Direitos Autorais do Sindicato dos Diretores da Coreia
Sociedades de gestão e reconhecimento dos direitos
A consolidação das sociedades de gestão coletiva constitui, para Saldarriaga, um dos desafios centrais da comunidade audiovisual internacional. “Que os países que não têm sociedades de gestão as organizem”, propõe. E acrescenta que FESAAL e AVACI podem acompanhar esses processos.
“Estamos no século do audiovisual. O século passado foi o da música, e este é o século do audiovisual. Então, é preciso organizar as sociedades de gestão do audiovisual”, afirma, acrescentando que “a cooperação internacional permite que as sociedades compartilhem ferramentas e conhecimentos diante de problemas que transcendem as fronteiras nacionais”.
A dimensão internacional também é central para Moon, que propõe aprofundar a colaboração entre sociedades de gestão coletiva e organizações sindicais para desenvolver contratos padronizados e acordos recíprocos transfronteiriços. O objetivo — explica — é garantir que os direitos dos autores possam ser aplicados de maneira efetiva mesmo quando as obras circulam fora de seus países de origem.
A inteligência artificial, um desafio compartilhado
A inteligência artificial atravessa as três perspectivas e aparece como um dos principais temas que a comunidade internacional deverá abordar nos próximos anos.
Para Saldarriaga, o desafio está relacionado ao uso de obras e conhecimentos dos autores para alimentar sistemas de inteligência artificial. “Tudo o que alimenta a inteligência artificial no nível audiovisual e no nível de roteiros e scripts é retirado do nosso trabalho, e por isso devem nos pagar”, sustenta.
Saldarriaga considera que o desenvolvimento tecnológico não deve ser interrompido, mas deve contemplar o reconhecimento dos direitos dos criadores. “Que a inteligência artificial continue operando, mas que reconheçam nossos direitos. O caminho deveria passar pelo diálogo e pela negociação entre aqueles que desenvolvem essas tecnologias e os titulares de direitos”, afirma.
Da Coreia do Sul, Moon concorda com a necessidade de estabelecer princípios comuns relacionados à transparência, à proteção do direito de autor e ao uso de obras no treinamento e na geração de sistemas de IA. Ao mesmo tempo, defende que a comunidade internacional fortaleça o diálogo entre autores, empresas, companhias de tecnologia, organizações de direitos autorais e especialistas jurídicos.
A visão de um autor que trabalha com IA
A perspectiva de Kasamacura, diretor de cinema japonês convidado para o Congresso e especializado na utilização de inteligência artificial em seus processos criativos, introduz outra dimensão ao debate. Para o realizador, a expansão da IA não elimina o papel central da criatividade humana. “Por mais que a tecnologia avance, acredito que a criatividade humana continua sendo a essência de toda obra: nossa cultura, nossas experiências e, sobretudo, a intenção do autor sobre o que deseja expressar e comunicar”.
A partir de sua experiência, considera que a produção audiovisual com IA ainda se encontra em uma etapa relativamente nova e que os marcos relacionados ao direito de autor, à propriedade intelectual, à gestão e à proteção dos direitos não evoluíram no mesmo ritmo que a tecnologia. Sua posição busca evitar que o debate seja reduzido a uma oposição entre regulamentação e desenvolvimento tecnológico. “A questão mais importante é como podemos fazer com que o desenvolvimento tecnológico e a proteção dos direitos dos criadores coexistam”, propõe.
Kasamacura entende a IA como uma nova tecnologia criativa capaz de ampliar as possibilidades de expressão, mas considera necessário estabelecer marcos transparentes para o uso de obras e dados existentes, o respeito às intenções e aos direitos dos autores e a proteção das novas obras criadas por meio dessas ferramentas. Nesse sentido, identifica alguns princípios que considera fundamentais para o futuro: direito de autor, proteção da propriedade intelectual, consentimento, transparência, atribuição e compensação justa.

Construir acordos além das fronteiras
As três perspectivas coincidem ao apontar que a transformação do audiovisual exige respostas que ultrapassem as legislações e os mercados nacionais.
Para Saldarriaga, o crescimento da AVACI e da FESAAL demonstra que autores de diferentes regiões podem construir uma agenda comum. Para Moon, essa cooperação pode contribuir para fortalecer as posições das organizações nacionais diante de processos de reforma legislativa e negociação. E, para Kasamacura, o intercâmbio entre criadores de diferentes culturas é indispensável para compreender como mudam as formas de criação e proteção das obras em cada contexto.
O diretor japonês também adverte que as leis e regulamentações não resolverão todos os desafios por si só, sendo necessário manter um diálogo permanente entre os diferentes atores da indústria, evitando que a proteção dos criadores e o desenvolvimento de novas tecnologias sejam entendidos como objetivos contrapostos.
O próximo Congresso da AVACI e da FESAAL em Tóquio se apresenta, assim, como um espaço para compartilhar experiências que, embora provenientes de contextos audiovisuais diferentes, enfrentam desafios cada vez mais semelhantes. Em um cenário no qual as obras circulam globalmente e as tecnologias transformam aceleradamente as formas de criação e exploração, o encontro buscará fortalecer a cooperação internacional e avançar na defesa dos direitos de todos os autores audiovisuais do mundo.

Congresso AVACI FESAAL 2025 realizado em Zagreb, Croácia


